5 de março de 2010

Rafael Papa-Tudo

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4 de março de 2010

O PODER DOS NOMES: Para meu neto e para seus pais

Sabemos que o ser humano tem muita dificuldade de aceitar a privação que lhe é imposta pela vida e resiste de maneira tenaz à qualquer frustração. Cada um reage singularmente a este aspecto da vida e toda criança expressa esta dificuldade chorando, esperneando, se debatendo e às vezes agredindo aquele que a frustra. O paradoxo é que não há educação sem frustração, pois para educar os pais precisam ser firmes e estarem preparados para um trabalho braçal! A condição para nos tornarmos seres humanos bons, alguém que não tenha a pretensão de estar sempre certo e de posse de toda a verdade, aceitando e respeitando o limite do outro é o de aceitarmos nossa própria limitação e nossas falhas.

Ter um neto significa ver a arte de educar acontecer novamente pelas mãos dos filhos, que sendo de primeira viagem ainda estão aprendendo a desempenharem este difícil papel de serem pais e a difícil tarefa de educar...

Fico sempre pensando em como posso contribuir para que a educação de um neto não seja mais dolorosa do que realmente é! Afinal penso sempre no que eu própria gostaria de ter sabido quando estava na condição de mãe de primeira viagem e assim escolho o que de minha experiência poderia ser aproveitado para facilitar as coisas.

Sabemos que é preciso coragem para não fazer repetir no filho os problemas que a gente mesmo quer esconder, pois afinal nos tornamos o que somos desconhecendo a verdade que moveu nossos pais a nos educarem tal como o fizeram. Cada um de nos estivemos na condição de alienados ao desejo de nossos pais que nem sempre conheciam também o que de fato desejavam para eles, esperando que nos pudéssemos recompensá-los de alguma forma. Sabemos que os pais fazem tudo em nome do amor e sempre desejam o nosso bem, mas isso não garante que sejam bem sucedidos em sua empreitada. Não sabiam fazer diferente e nem sabiam porque assim faziam e é por isso que devem ser perdoados.

Espero poder ajudar os pais de meu neto a não repetirem o que lhes foi pesado viver na tentativa de corresponder a expectativa de seus próprios pais e quero me colocar a disposição para ajudá-los (se assim desejarem), pois só assim posso fazer sentido como avó.

Estive pensando nas palavras que empregamos para designar esta dificuldade humana em lidar com as frustrações impostas pela civilização e temo dizer que não é possível viver civilizadamente sem aprender a lidar com elas, ou seja esta é uma dificuldade de todos nós. Escutamos e dizemos que uma criança é teimosa, birrenta, brava, pirracenta e outros tantos adjetivos quando ela resiste em aceitar as privações em sua primeira infancia.

A psicologia nos ensina que nascemos carecendo de "ser" e que vamos nos tornando algo ao longo da vida a partir do que nos disseram que somos desde muito cedo. Temos um nome próprio e esse é inegociável, mas os outros nomes que recebemos não nos definem a não ser pela metade!

Os pais devem fazer um grande esforço para não dar nomes às crianças pois isso dará um sentido às suas vidas, fixando-as aos comportamentos correspondentes aos tais nomes, determinando a maneira como elas vão lidar ao longo da vida diante das dificuldades e das frustrações. Todos os nomes têm um duplo sentido, podendo condenar as crianças a atitudes que lhe sejam prejudiciais quando adultas. Explico-me: Se dizemos que uma criança é brava, podemos querer marcar o fato dela não abrir mão de seu desejo, buscando de toda a maneira conquistar o que quer. Isso é uma qualidade dos heróis e a bravura pode ser vista também como coragem. Como isso não é para muitos, a criança pode se vangloriar de ser nomeada assim. Mas por outro lado, se uma criança aprende que é brava porque se manifestava raivosamente diante de uma contrariedade , ela terá muitas dificuldades de ser tolerante com as frustrações que são peculiares a vida humana, podendo ser tornar intransigente e despótica para com os outros. Poderá sofrer esta condição sem saber como ser diferente, até porque aprendeu a ver sua braveza ou bravura como aspectos que lhe conferiam identidade. As vezes as pessoas naturalizam características da personalidade que foram adquiridas na relação com o Outro, desconsiderando que estas não vieram nos genes e por isso não vêem como mudar ou como serem melhores do que são, exigindo das pessoas que amam a aceitação do seu temperamento. Apenas se quiserem não fazer quem amam infelizes e desejarem ser diferentes das palavras que as constituem, terão que sofrer no processo analítico para construir novas formas de se relacionarem com o outro.

É por isso que penso que devíamos chamar Rafael de nomes que sejam eminentemente bons tais como amoroso, inteligente, perspicaz, forte e determinado, corajoso, mesmo sabendo que se ele for até o limite da significação dos três últimos nomes, pode chegar no seus opostos, tomando seus objetivos como mais importantes do que qualquer outro, desconsiderando o coletivo e o respeito à alteridade. Para que os nomes considerados bons não se transformem em seu oposto é preciso mediação e regulação amorosa dos pais.

Espero poder dividir com este menino, que um dia será um grande homem momentos de carinho e de amor exigente, ou seja, momentos em que ele terá que abrir mão do que quer em função de um valor moral maior que seu interesse, para assim também poder se ver no futuro como um grande homem.

Com o tempo ele aprenderá que tudo nesta vida tem um preço: não há como pagar pouco quando se quer ser alguém admirável e respeitado pelo outro. O pagamento é sempre a exigência dialética de aceitar o limite para paradoxalmente ser capaz de ir mais longe do que a maioria. É preciso coragem para ser um ser humano bom e fazer este mundo melhor com a nossa estadia aqui e eu vejo no Rafael disposição para lutar pelo que quer como todo ser humano. Ele depende então da sabedoria dos pais para dar-lhe noção do limite de maneira a ensiná-lo quais lutas deve travar para não sofrer e não fazer o outro sofrer desnecessariamente.

De uma avó que ama o neto porque ama irrevogavelmente sua filha e de tabela seu marido que, juntos, são pais de primeira viagem.